Domingo, 1 de Novembro de 2009
António Pinho Vargas e o "gesto lírico e consonante"

(texto para a folha de sala do recital de António Pinho Vargas, Culturgest, Lisboa, 31.10.09)

 

 

Se quisermos referir-nos apenas a um único domínio da sua actividade musical, são hoje raríssimas as oportunidades de poder reflectir acerca da arte tão singular de António Pinho Vargas (APV) no que à prática e à criação do jazz se refere.

 

O recente lançamento, com pouco menos de um ano a separá-los, de dois álbuns duplos gravados a solo pelo pianista  – e como tal intitulados –,  constituíndo como que uma meticulosa e profunda revisitação da sua obra jazzística, apresentam-se como uma boa ocasião para fazê-lo e, sobretudo, para sublinhar alguns aspectos absolutamente marcantes na sua personalidade musical, melhor dizendo, no desdobramento estritamente musical dessa personalidade.

 

Iniciando a sua actividade no campo do jazz no início dos anos de 1970 e inserido nas correntes então vanguardistas  (como o free jazz)  cujas primeiras manifestações despontavam em Portugal, APV viria também a interessar-se paralela ou consecutivamente por diversas expressões do jazz e da música pop urbana, como o rock, o funk e outras manifestações das chamadas fusões, mais tarde vindo a estabilizar, por assim dizer, esse percurso sinuoso, multifacetado e prolífico na criação de um tipo de jazz de características muito raras entre nós, atitude acompanhada da consciente assunção da sua qualidade de músico europeu e, sobretudo, de músico português.

 

Ao fazê-lo, o pianista e compositor, não deixava também de reflectir, no plano musical e no plano ideológico, um pensamento cada vez mais pessoal e convicto, mesmo que sempre aberto e atento à evolução dos fenómenos culturais e sociais envolventes.

 

Por um lado, APV destacava-se entre os músicos de jazz nacionais seus contemporâneos por um progressivo afastamento do jazz de modelo norte-americano, até aí mais divulgado e praticado  (como seria inevitável)  entre nós, com a clara excepção, no plano instrumental, do seu manifesto interesse pela expressividade técnica de outros pianistas, como Chick Corea, ou, no plano composicional, pela criatividade musical de Keith Jarrett e dos seus quartetos americano e europeu, também estes experiências raras e únicas.  Por outro lado, a escolha e a formulação dos motivos musicais que serviam de fonte temática e estruturante da improvisação inerente ao jazz, passavam a invocar, em termos melódicos e mesmo harmónicos, uma expressão inequivocamente portuguesa.

 

Julgo poder assim dizer-se que, sem o exemplo de APV, teria sido menos natural o posterior surgimento na cena do jazz português de outros pianistas como Mário Laginha ou João Paulo Esteves da Silva.

 

O aprofundamento da sua preparação musical académica, realizada em Portugal e no estrangeiro, levariam o compositor a optar mais claramente por um outro caminho de afirmação musical a partir de meados dos anos de 1980.  E, embora não tenha deixado de episodicamente actuar em público como instrumentista de jazz ou mesmo de gravar mais alguns  (poucos)  álbuns neste domínio musical, foi ao ofício de compositor na área da música erudita contemporânea que passou a dedicar até hoje parte substancial do seu tempo criativo  (sendo, nela, figura de primeiro plano entre os seus pares),  acompanhada de uma actividade relevante no âmbito da docência e também da reflexão e ensaio publicados sobre o fenómeno musical.

 

Mesmo antes de desafiado, o escriba, a ocupar umas dezenas de linhas com alguma prosa minimamente indicativa quanto ao papel de APV no jazz português e sobre o que poderá antecipar-se acerca do concerto desta noite  – que enquadra o lançamento do esperado segundo volume de Solo –  este empreendimento, sempre de algum modo especulativo, já começara afinal anteriormente ao repto, aquando da publicação do seu primeiro volume.

                                                                                             

Não tendo assistido nos últimos tempos a qualquer recital ou concerto de APV na área do jazz nem tendo qualquer pista ou indício acerca do conteúdo concreto do primeiro Solo que me preparava então para ouvir em disco, a minha mais interessante e premente dúvida relacionava-se com a seguinte questão de ordem estética:  que porção da dupla personalidade do compositor havia prevalecido no resultado final da obra discográfica?  Teria o peso mais recente e absorvente do seu lado erudito influído nesse resultado, como “intromissão” transfiguradora e reformuladora das peças que ainda bailavam na minha memória?  Ou optara o autor por se manter, no fundamental, fiel à impressão digital e à matriz original que, quiçá, desde sempre pretendera se mantivessem indeléveis nos originais gravados entre 1983 e 1996?  Quem sabe, mesmo, se tal questão se lhe chegou a colocar no decorrer deste processo?
 

A conclusão provisária a que pude chegar, então, não foi divergente da conclusão mais definitiva que voltei a tirar, agora, da privilegiada primeira audição de uma cópia privada de Solo II, a saber:  parece-me claro que, independentemente de se tratar, aqui, de versões para piano solo e não para formações instrumentais de constituição diversa ou para duo instrumental com voz, a verdade é que António Pinho Vargas, enquanto compositor, decidiu de uma forma natural permanecer firme na sua atitude de não deixar os seus dois mundos composicionais embrenharem-se um no outro;  de contrariar possíveis contaminações da obra jazzística e de expressão tantas vezes popular, portuguesa, por persuasões ou tentações de tipo erudito, preferindo conservar-lhes o essencial da traça original e optando por uma revisitação o mais pura e enxuta possível dessa obra.

 

Provavelmente ao contrário do que poderá suceder na muito diferente situação de uma actuação em palco  – durante a qual a interacção com o próprio público é tantas vezes decisiva nas mudanças de estratégia (1) –  ao fazer aquela opção, APV foi ao ponto de limitar, de algum modo, ao peso essencial e adequado, a vertente da improvisação jazzística sobre o material de base;  e só raramente se deixou arrebatar por desenvolvimentos idiomáticos ou improvisativos à maneira de um Jarrett ou de um Mehldau, aqui circunscritos  (como já ensaiara num disco anterior, A Luz e a Escuridão)  à aposição de prelúdios ou poslúdios, regra geral singelos e parcimoniosos.

 

Mas uma consequência extremamente feliz deste caminho escolhido por APV foi a capacidade de nos devolver a memória de um lirismo sem mácula que banha várias das suas peças e, ao mesmo tempo, deixar-nos mergulhar deliberadamente no mundo da consonância que melhor permite realçar aquele, como acontece simbolicamente com o acorde perfeito maior que encerra de forma paradigmática o segundo disco de Solo II.

 

E sem que isto constitua qualquer contradição com o que atrás se escreveu, talvez que a prática erudita da música orquestral tenha afinal influído na expressividade sonora e tímbrica que APV tão bem sabe hoje extrair de um instrumento “orquestral” como nenhum outro  – o piano –  a um tempo puro e cristalino nas deambulações melódicas;  obssessivo e insistente nas notas pedal que lhes servem de sustento;  percussivo e ressonante nos graves;  incisivo, mordaz e sibilino nos agudos;  pastoso, volúvel e sensual nos médios;  mas sempre deixando lugar à imperfeição que todo o jazz desejavelmente deve ser, como o pianista parece querer sublinhar ao sub-intitular Imperfeições 1, 2, 3 e 4 os quatro CDs que compõem estes dois álbuns duplos.

 

Foi assim que pude recordar, ao ouvi-los  – esperando agora redescobrir de uma outra forma em palco –,  a beleza evocativa de “canções sem palavras” como Brinquedos, Veado Ferido, Quatro Mulheres, Casa de Granito no Minho ou Cantiga para Amigos;  os profundos e sentidos “corais” de Da Alma, Funerais, Que amor não me engana ou a “tocata” de Alentejo, Alentejo;  o “perpetuum mobile” (!) de O Movimento Parado das Árvores;  a alegria radiosa de Vilas Morenas, Dança dos Pássaros ou Dinky Toys;  a emoção perturbadora de Lindo Ramo, Verde Escuro ou The times they are a-changing;  as modulações a tons afastados de Cantiga para Maria;  o modalismo ibérico de Olhos Molhados;  as harmonias paralelas de O Sentimento de um Ocidental ou Águas Matinais da Holanda;  a tensão latente de Apesar de tudo, a calma (!);  o Poslúdio para Franz  (fazendo lembrar-me Maria João!);  ou ainda a impetuosa articulação jazzística e a irreprimível liberdade de Ornette, Thelonius, June, In Between T & O e General Complex.

______________________________

 

(1) -- Em tempo (01.11.09):  o recital foi um êxito musical e um sucesso de público.  E tal como em geral acontece numa actuação em palco no domínio do jazz, António Pinho Vargas transcendeu-se e transpôs, mesmo, as emoções para o teclado, indo mais além nos seus desenvolvimentos improvisativos, em particular no regresso ao piano para a terceira  (e última)  sequência de peças  (antes dos três encores),  com duas versões de antologia para Thelonius e General Complex.

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Fotos: cortesia de Isabel Pinto


 



Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 16:41
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